(Para o mestre de música. Salmo e cântico da família de Asafe.)
1 Deus, o supremo Juiz, levantou-se na assembléia divina, no meio dos poderosos abre o julgamento:2 “Até quando dareis sentenças injustas, favorecendo os ímpios?
(Pausa)
3 Sede juízes para o desvalido e órfão, fazei justiça ao mísero e ao indigente; 4 libertai o fraco e o pobre, livrai-os das garras dos ímpios!
5 Eles nada compreendem, nem percebem que vagueiam pelas trevas da ignorância e da insensibilidade; abalam assim as bases que sustentam a própria terra.
6 Eu declarei: vós, ó juízes, sois como os deuses; todos vós sois filhos do Altíssimo!
7 No entanto, como seres humanos, morrereis e, como qualquer outro governante, caireis”.
8 Levanta-te, ó Eterno, e julga tua terra, porquanto a Ti pertencem todas as nações!3(Bíblia King James)*
É um salmo de forte inspiração poética e grande vigor moral-religioso. Deus aqui aparece como um um “juiz de juizes”, tipo assim um Supremo Corregedor. E assim vem questionar todos os seus filhos (deuses)que tiveram chance de exercer a justiça e o direito aos desvalidos, órfãos, miseráveis e indigentes.
Como ensina o comentário da Bíblia King James:
O salmista tem a nítida visão de uma grande assembléia no Superior Tribunal da Justiça Divina, onde os reis, juízes, governantes e os poderosos da terra foram convocados para depor e prestar contas de suas ações (1Rs 7.7; 22.19; Jó 1.6; 2.1; Sl 89.5; Is 6.1-4). Na linguagem poética do antigo Oriente Médio, os reis, príncipes e juízes eram considerados procuradores do Rei celestial e, portanto, dignos de receber o título de “deus” (Êx 9.16; 21.6; 22.8; Sl 2.7; 1Rs 3.9; Pv 8.14-16; Jr 27.6; Dn 2.21; 4.17,32; 5.18; Is 11.2; 44.19,28; Jo 19.11; Rm 13.1).*
Asafe,o salmista, suplica que Deus venha sem demora para julgar todos (inclusive nós) os que tiveram a chance ou o privilégio de exercer justiça e não o fizeram. É um exemplo e aviso para nós.
Existe um texto do Evangelho de João em que Jesus cita este salmo. Certa vez, estava Jesus em Jerusalém e...
22 Celebrava-se a festa da Dedicação, em Jerusalém. Era inverno, 23 e Jesus estava no templo, caminhando pelo Pórtico de Salomão. 24 Os judeus reuniram-se ao redor dele e perguntaram: “Até quando nos deixará em suspense? Se é você o Cristo, diga-nos abertamente”.
25 Jesus respondeu: “Eu já lhes disse, mas vocês não crêem. As obras que eu realizo em nome de meu Pai falam por mim, 26 mas vocês não crêem, porque não são minhas ovelhas.
27 As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem.28 Eu lhes dou a vida eterna, e elas jamais perecerão; ninguém as poderá arrancar da minha mão. 29 Meu Pai, que as deu para mim, é maior do que todos; ninguém as pode arrancar da mão de meu Pai.
30 Eu e o Pai somos um”.31 Novamente os judeus pegaram pedras para apedrejá-lo, 32 mas Jesus lhes disse: “Eu lhes mostrei muitas boas obras da parte do Pai. Por qual delas vocês querem me apedrejar?”33 Responderam os judeus: “Não vamos apedrejá-lo por nenhuma boa obra, mas pela blasfêmia, porque você é um simples homem e se apresenta como Deus”.
34 Jesus lhes respondeu: “Não está escrito na Lei de vocês: ‘Eu disse: Vocês são deuses?
35 Se ele chamou ‘deuses’ àqueles a quem veio a palavra de Deus (e a Escritura não pode ser anulada),36 que dizer a respeito daquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo? Então, por que vocês me acusam de blasfêmia porque eu disse: Sou Filho de Deus? 37 Se eu não realizo as obras do meu Pai, não creiam em mim.38 Mas se as realizo, mesmo que não creiam em mim, creiam nas obras, para que possam saber e entender que o Pai está em mim, e eu no Pai”.
39 Outra vez tentaram prendê-lo, mas ele se livrou das mãos deles.40 Então Jesus atravessou novamente o Jordão e foi para o lugar onde João batizava nos primeiros dias do seu ministério. Ali ficou,41 e muita gente foi até onde ele estava, dizendo: “Embora João nunca tenha realizado um sinal miraculoso, tudo o que ele disse a respeito deste homem era verdade”. 42 E ali muitos creram em Jesus. João10:22-42 NVI **
Aqui Jesus salva a sua vida citando o salmo 82. Cristo demonstrou que o Antigo Testamento empregara a palavra “deuses”(elohim) para homens que representavam a Deus. Como acrescenta Eugene Peterson:
“Jesus atribuiu essa palavra a ele mesmo, mas não com exclusividade: “se ele chamou deuses a quem veio a palavra de Deus...” (...) por sua palavra Deus transforma homens e mulheres em “deuses”. pela ordem dele, os juizes eram deuses, realizando Seu trabalho(..) humanos se tornaram juizes que participam da ministração divina da justiça e, com isso, passam a ser deuses.(...) Soa como blasfêmia aos nossos ouvidos, assim foi com os judeus que desafiaram Jesus. Mas não é blasfêmia, é encarnação.”***
A ênfase está no trabalho e não o que a pessoa é, mas sim o que ela faz. Leia:
25 As obras que eu realizo em nome de meu Pai falam por mim,
32Eu lhes mostrei muitas boas obras da parte do Pai. Por qual delas vocês querem me apedrejar?
37 Se eu não realizo as obras do meu Pai, não creiam em mim.38 Mas se as realizo, mesmo que não creiam em mim, creiam nas obras, para que possam saber e entender que o Pai está em mim, e eu no Pai”.
Entendemos que os que julgavam, faziam e participavam do trabalho divino. Como diz Peterson:
“Não há trabalho secular, nenhum serviço é apenas nosso. Ao trabalhar nunca estamos “por conta própria. Somos semelhante a Deus no trabalho porque toda obra tem origem nEle e é Ele quem determina o que devemos fazer. Há dupla intenção no trabalho: continuar o processo da criação(Gênesis 2:15) e enfrentar as conseqüências do pecado(Gênesis 3 :17-19,23). A obra original de cuidar do jardim não foi revogada pela Queda, mas por certo ficou mais complicada com a presença de espinhos e pragas”***
Aprendemos então que orar e salmodiar não é afastar-se do mundo e alienar-se para cultivo de experiências interiores mas aprendemos que a vida espiritual nos dirige a distribuir amor, misericórdia e compaixão pois nos tornará capazes de exercer julgamento.
Na minha oração, ao pedir que o Pai realize o trabalho dEle,entendo que existe trabalho para mim também.
Boa meditação!
Jorge Wilson
*** Peterson E. - Onde o seu tesouro está .Ed.Textus . Niterói. Ano 2005 Pag.153 e 154